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Brasil, 5 de Fevereiro de 2012
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Sumário

Visão indiana rompe fronteiras

 

Grupo químico de origem indiana adquire a Pulvitec. Compra só foi concretizada após estudo de três anos do mercado brasileiro de colas, adesivos e selantes.

 
Fábio Sabbag
 

Peter BaumgartlApós estudar profundamente o mercado brasileiro de adesivos, colas e selantes durante três anos, a Pidilite - grupo químico de capital aberto e de origem indiana, controlado pela família Parekh - adquiriu a fabricante nacional Pulvitec, que no ano passado registrou vendas de R$ 50 milhões. A aquisição envolve a marca e a fábrica da Pulvitec, hoje situada na zona oeste de São Paulo. Os valores da negociação são mantidos em sigilo.

Além da compra no Brasil, o grupo indiano concretizou duas aquisições no ano passado, nos Estados Unidos, de empresas fabricantes de lubrificantes, aditivos e colas escolares.

Fundada no final da década de 50, a Pidilite apresentou, nos últimos 12 meses, vendas brutas de US$ 306 milhões. No mesmo período a companhia alcançou lucro líquido de US$ 24,7 milhões.

Por aqui, Peter Baumgartl foi nomeado diretor-presidente da operação América Latina e encabeça as estratégias que serão adotadas daqui para frente em toda a região. Após passar por um longo estágio na Alemanha, Baumgartl tornou-se especialista em custo industrial. Quando voltou ao Brasil atuou na área de exportação de uma grande empresa de telecomunicação e tecnologia.

Sua primeira experiência como gerente-geral foi também numa empresa alemã de instrumentos de medição. Em 1993 teve o primeiro contato com o mercado de adesivos e selantes. Durante oito anos, Baumgartl foi diretor de uma fabricante de adesivos, colas e selantes. Depois acumulou mais seis anos numa companhia argentina, também produtora de adesivos.

Em setembro deste ano Baumgartl recebeu o convite da própria Pidilite e aceitou o desafio de gerenciar não só o Brasil como também a América Latina toda.

A&S: Como se deu o processo de aquisição da Pulvitec?
Peter Baumgartl:
Acredito que valha voltarmos um pouco e buscarmos o que está acontecendo na Índia. O país está passando por uma espécie de milagre econômico, semelhante ao que aconteceu no Brasil no tempo de Delfim Neto. A única diferença é que percebemos que o empresário indiano tem a visão de que precisa sair da Índia e expandir seus negócios para o mundo. Hoje, nas literaturas e revistas especializadas, percebemos que os indianos, nas áreas siderúrgica, automotiva e de medicamentos, estão investindo fortemente no mundo todo.

Da mesma forma que as demais potências estabelecidas na Índia, a Pidilite, nos últimos seis anos, comprou sete empresas pelo mundo: nos Estados Unidos, Malásia, Dubai e criou a Pidilite do Brasil há três anos.

O objetivo, no Brasil, era buscar uma oportunidade de investimento numa empresa de adesivos. Foi criada, então, a Pidilite do Brasil, cujo único objetivo era a compra de alguma empresa. Depois de muito garimpo, encontraram a verdadeira jóia que é a Pulvitec.

A&S: Na Fimec (31ª Feira Internacional de Couros, Químicos, Componentes e Acessórios, Equipamentos e Máquinas para Calçados e Curtumes, realizada de 17 a 20 de abril, em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul) tivemos a oportunidade de conversar com Satya Muley, indiano responsável pelo “garimpo” no mercado brasileiro. Ele frisou que o relacionamento do indiano com as empresas que o atende envolve várias questões, como a religião e o próprio trato com o consumidor. Como você visualiza esse relacionamento no mercado brasileiro?
Baumgartl:
Naturalmente a Pidilite aprendeu muito durante esses três anos estudando o mercado brasileiro, assim como Muley e outros executivos indianos.

Mesmo com algumas similaridades - ambos são populosos e emergentes -, os países possuem culturas diversas. Por outro lado, a Pidilite também conta com a experiência da Pulvitec para se relacionar da maneira adequada com o consumidor brasileiro.

A&S: Quanto a Pidilite pagou pela Pulvitec?
Baumgartl:
Essa é uma informação que a empresa prefere manter reservada. O que podemos informar é que a Pidilite olha a aquisição como o primeiro passo do investimento. Na própria Pulvitec há um processo de investimento forte nos próximos cinco anos na expansão da linha e no aumento da capacidade de produção, que hoje é insuficiente para atender o mercado brasileiro.

Existe ainda plano concreto de adquirir outras empresas no Brasil que tenham sinergia com a Pulvitec dentro da América Latina. Daí a minha contratação com abrangência na região.

A&S: O que significa sinergia na América Latina?
Baumgartl:
Quando falamos em sinergia, quero dizer que aproveitaremos os canais de distribuição da Pulvitec para agregar outros produtos. Ou seja, as aquisições teriam como objetivo uma complementação de linha.

A&S: Qual é, atualmente, o principal mercado da Pulvitec?
Baumgartl:
Definitivamente é a construção civil. A Pulvitec tem uma história construída nesse setor. Dentro da construção civil, é muito focada na área hidráulica, que lhe proporcionou resultados surpreendentes.

A&S: Há intenção de a empresa trabalhar outros segmentos?
Baumgartl:
Aproveitando todo o aporte tecnológico e econômico da Pidilite, o plano é abrir para outros segmentos. A Pulvitec quer se tornar mais abrangente no mercado, com um portfólio mais amplo de produtos e partir para outros canais que tenham afinidade com sua atividade.

A&S: Ampliar o portfólio significa atingir quais mercados ou quais linhas de produtos?
Baumgartl:
Há espaço dentro da própria construção civil. A Pulvitec está praticamente fora dos poliuretanos, tanto os monocomponentes como bicomponentes. Temos uma atuação muito discreta em colas de contato e em espumas de poliuretano. Ou seja, há uma série de nichos que ainda podem ser explorados.

Ao olhar a vocação da Pidilite, detectamos que os segmentos de papelaria e de faça-você-mesmo são atividades principais da companhia. Já na Pulvitec são áreas secundárias. De forma muito natural, a Pulvitec entrará nesses mercados.

A&S: Na sua avaliação, a junção de culturas das empresas será complexa?
Baumgartl:
A Pidilite é uma empresa de uma dimensão completamente diferente da Pulvitec. É uma empresa de grande porte, por isso esperamos que o intercâmbio de informação e tecnologia seja muito mais da Pidilite para a Pulvitec. Ainda assim, percebemos com orgulho que há muita coisa da Pulvitec que a Pidilite pode aproveitar, mesmo com os 50 anos de experiência e o seu porte.

A&S: Qual será o foco do intercâmbio de informações?
Baumgartl:
A experiência de relacionamento com o mercado e modelos de distribuição que ainda são totalmente diferentes. Observamos que o mercado indiano se encontra num estágio no qual o brasileiro esteve há décadas. Eles enxergam na Pulvitec o que será o mercado de distribuição na Índia no futuro.

A&S: Esse estágio será alcançado com base no crescimento de mercado? Existe esse espaço no mercado brasileiro?
Baumgartl:
Eu costumo afirmar que o mercado sempre está aberto para crescimento. Ambos os países possuem boa parcela da população com baixa renda. A evolução natural seria que essa população fosse cada vez mais incorporada ao consumo e que tivéssemos um ciclo de algumas décadas de crescimento no Brasil. Mas essa questão depende muito mais do movimento econômico mundial do que do próprio mercado brasileiro.

Falando especificamente do mercado de adesivos, nota-se no Brasil, assim como na Índia, que tecnologias de adesivos sofisticadas ainda não chegaram ou quando chegam são utilizadas de uma maneira bem discreta por falta de conhecimento da aplicação.

A&S: É a ‘famosa’ escassez de informação?
Baumgartl:
O consumo per capita de silicones no Brasil é uma fração do mercado chileno, alemão ou americano. O que quero dizer é que o empreiteiro e o usuário doméstico no Brasil descobrirão com o tempo que o silicone é um produto melhor do que aquele que está sendo usado no momento. Ele terá uma vida útil maior. Com essa descoberta o produto será cada vez mais incorporado. Poliuretanos, silicones, uma série de produtos ainda está sendo descoberta nesse mercado e isso acontece no Brasil e na Índia.

A&S: O que falta para o amadurecimento do segmento de selantes de silicone no mercado automotivo?
Baumgartl:
Trata-se da qualidade do serviço do reparo que se quer fazer no automóvel. Quanto mais antiga for a frota automotiva do País, menos se usa esses produtos. Por isso, o consumo é menor no Brasil, que tem uma frota relativamente velha. Nos locais onde muitas tarefas deveriam ser feitas com silicones de alta temperatura há outras soluções conhecidas como quebra-galhos. Falo do after-market, do carro que vai para a oficina. Esse é um mercado para o qual tanto a Pulvitec como a Pidilite não têm planos.

A&S: Além da construção civil, qual outro foco da empresa?
Baumgartl:
Dentro da própria construção civil, além da hidráulica, almejamos outras áreas. Sairemos um pouco do mercado de varejo e chegaremos ao usuário final, à construtora e, com toda a certeza, ao mercado faça-você-mesmo.

A&S: Qual a atual capacidade de produção da Pulvitec?
Baumgartl:
É difícil falar em capacidade porque temos uma linha muito diversificada de produtos. Afirmo que nos produtos principais chegamos ao limite; nas colas brancas rodamos dois turnos e a produção está toda vendida. As colas para tubos de PVC e outros produtos também estão nesse mesmo estágio.

Por isso, nosso primeiro passo é um investimento na fábrica, que esperamos concluir em fevereiro do ano que vem, onde montaremos um segundo reator de colas brancas. O investimento duplicará a capacidade. Além disso, estamos importando maquinário para outras linhas de produtos, que aumentará a capacidade significativamente.

A&S: Qual o investimento?
Baumgartl:
Não podemos divulgar.

A&S: Na sua avaliação, há potencial de crescimento no mercado de adesivos no Brasil?
Baumgartl:
Há vários anos é comentado que o crescimento do mercado de adesivos no Brasil é duas vezes o PIB. Para adesivos, durante os próximos 20 anos, até por ser uma tecnologia que ainda está sendo incorporada, teremos crescimento acentuado. Sempre haverá novos consumidores que descobrirão novos produtos e diferentes aplicações. Mundialmente, o segmento cresce duas vezes à velocidade do PIB.

A&S: A indústria automotiva monta vigorosamente mais e mais veículos e a construção civil é alvo de constantes investimentos. Não é hora de o mercado brasileiro alcançar a capacidade de consumo de outros países desenvolvidos?
Baumgartl:
O grande problema é que não podemos falar só em consumo. A renda per capita do Brasil é mais baixa que aquela obtida nos países desenvolvidos. Os países emergentes precisam mesmo é de informação; eles têm de descobrir que determinado produto é melhor para uma determinada aplicação. Cito como exemplo o mercado de portas no Brasil. É muito mais comum o operário da construção civil colocar batentes com pregos e cimento que aplicar espuma de poliuretano. Quem já observou um pedreiro nessa tarefa percebeu que a demora é de no mínimo de três horas para alcançar o prumo. Com a espuma de poliuretano o trabalho se dá em dez minutos e seu custo é totalmente irrelevante. A durabilidade é a mesma, quando não mais longa. Nos países desenvolvidos tudo é colado.

A&S: Mesmo sendo irrisório no processo, no final há diferença de custo entre o prego e adesivo. Como fixar a idéia da melhoria no processo?
Baumgartl:
O adesivo é uma solução mais cara, mas tecnologicamente muito melhor. Claro que ele se torna mais caro se desconsiderarmos o tempo de processo. O prego, como matéria-prima pura, é mais econômico, mas pensar que o profissional levará três horas para terminar o trabalho assusta. Vale lembrar que a mão-de-obra no Brasil já não é tão barata e, com a espuma de poliuretano, o processo é finalizado em dez minutos. Outro exemplo é o banheiro: observamos no Brasil que se usa cimento branco nas uniões de materiais diversos onde, na verdade, deveria ser usado silicone, que é elástico. A aplicação ainda é feita com cimento branco, mas depois de um tempo tudo racha e é preciso refazer novamente. A economia inicial vai por água abaixo.

A&S: Qual mercado ainda não despertou para o uso do adesivo?
Baumgartl:
A pergunta é capciosa, pois mesmo que soubesse não gostaria de divulgar. Mas devemos observar que tudo, ou quase tudo, que está à nossa volta é colado. Eu não vejo um segmento que ainda não tenha descoberto a colagem. Os plásticos são muito difíceis de colar e algum tempo atrás surgiram os acrílicos modificados, conhecidos como metacrilatos, que estão resolvendo os problemas de plástico. Percebemos que a indústria do plástico começa a usar porque surgiu um produto novo que resolve um problema que antes não tinha solução.

A&S: O que o mercado brasileiro pode esperar da Pidilite e da Pulvitec em 2008?
Baumgartl:
Com certeza haverá um intercâmbio de informação muito produtivo para o mercado brasileiro. Acredito que, se o mercado de adesivos cresce duas vezes à velocidade do PIB, a Pulvitec crescerá com velocidade três vezes maior devido ao aporte tecnológico.

Um excelente ponto que encontrei na Pulvitec é seu quadro de funcionários, constituído por um pessoal entusiasmado. Quando falamos em crescimento e em novos projetos, percebo olhos brilhando. E esse patrimônio representa mais do que o investimento e maquinário. Vamos aproveitar esse entusiasmo natural juntamente com a modernidade e a tecnologia colocados à disposição pela Pidilite.

Quanto ao mercado brasileiro, a economia registra uma boa velocidade de crescimento e, seguindo os indicadores, teremos um ano excelente. A indústria de adesivos encerra 2007 festejando e seguirá na mesma balada em 2008.

A&S: Esse cenário é o que torna o Brasil mais atrativo para os investidores indianos?
Baumgartl:
Com certeza o Brasil é a menina-dos-olhos. O Produto Interno Bruto (PIB) de toda a América do Sul equivale ao brasileiro. É muito mais fácil explorar o mercado brasileiro que os países latino-americanos juntos. Eu diria que para qualquer investidor de fora da América Latina o lugar para aportar é o Brasil, ainda mais agora com a moeda forte e o câmbio praticamente estável. É o lugar natural para se começar.

 
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