O
crescimento do segmento nacional de calçados
nos últimos anos mostra que a indústria
brasileira não deve nada para nenhum outro
país. Segundo dados da Abicalçados
(Associação Brasileira das Indústrias
de Calçados), o parque calçadista brasileiro
tem hoje mais de 8,4 mil indústrias, que produzem
725 milhões de pares ao ano, sendo que 189
milhões são destinados à exportação.
O setor é um dos que mais geram emprego no
País. Em 2004, 313 mil trabalhadores atuavam
diretamente nessa indústria.
A
grande variedade de fornecedores de matérias-primas,
máquinas
e componentes, aliada à tecnologia de produtos
e inovações,
faz do setor calçadista brasileiro um dos
mais importantes do mundo, ainda de acordo com a
Abicalçados. São mais de 1,5 mil indústrias
de componentes instaladas no Brasil, mais de 400
empresas especializadas no curtimento e acabamento
do couro - processando anualmente 30 milhões
de peles - e cerca de uma centena de fábricas
de máquinas
e equipamentos.
A
Assintecal (Associação
Brasileira de Empresas de Componentes para Couro,
Calçados e Artefatos) projetou um crescimento
de 15,6% nas exportações de janeiro
a setembro de 2006 pelo setor de componentes. Ao
todo, foram comercializados com o exterior US$ 664,36
milhões, contra
os US$ 574,7 milhões no mesmo período
de 2005.
“O
câmbio afeta o desempenho, mas o esforço
dos empresários
e os investimentos em diferenciação
abrem espaço para os
produtos brasileiros em mercados importantes em todos
os continentes”,
enfatiza o presidente da Assintecal, Luís
Amaral. Em comparação
com o mesmo mês de 2005, setembro teve 23,44%
de aumento, totalizando US$ 84,98 milhões,
ante os US$ 68,84 milhões
somados no ano retrasado.
Os
números também
são animadores nas importações,
que vinham registrando grande crescimento, especialmente
no segmento de produtos químicos, em razão
do câmbio favorável. Esse ritmo
teve forte redução em setembro, com
retração de 47%
nas importações em relação
ao mesmo mês de
2005, passando de US$ 187 milhões para US$
98 milhões.
Mesmo
com queda nas importações,
a soma entre janeiro e setembro de 2006 se apresenta
em 3% acima que a do mesmo período do ano
passado, atingindo US$ 832,27 milhões, contra
US$ 803,17 milhões em 2005.
Segundo
Ivan Batista, gerente de marketing da Amazonas
Quimicam, o mercado de colas para calçados é altamente
competitivo, com concorrentes de alto nível
técnico e comercial. Com esse nivelamento,
a qualidade dos serviços prestados aos clientes
torna-se o grande diferencial competitivo. E essa
qualidade de serviços não engloba apenas
ter um produto que atenda às necessidades
de processo e um sistema de logística
a contento. É preciso ter profissionais que
possam dar consultoria em processos industriais que
não envolvam colagem, ou seja, que sejam consultores
em todo o processo produtivo do cliente, que vai
desde a análise dos insumos
até os processos produtivos adequados. “Certamente,
o fornecedor que prestar os melhores serviços,
tiver um portfólio de produtos
que atenda às especificações
do processo produtivo calçadista
e trouxer novidades e ganhos terá uma enorme
vantagem competitiva nesse mercado concorrido”,
comenta Batista.
Na
opinião de Delvone Teixeira
Poitevin, gerente de aplicação
de adesivos para calçados da Artecola, a indústria
calçadista é um
mercado em processo de mudança, que está realizando
ajustes para competir com os concorrentes asiáticos.
Geograficamente, existe uma mudança
da produção de calçados do Sul
para os estados do Nordeste, buscando incentivos
fiscais e, com isso, maior competitividade no mercado
interno e externo. Além disso, é muito
importante nesse momento a busca por inovação,
seja em processos e materiais, seja em design dos
calçados, diferenciando nosso produto principalmente
daquele fabricado na China. “Dessa forma, essas
mudanças se refletem no perfil dos
fornecedores de colas para calçado, que buscam
eficiência logística,
menores custos e inovação em processos
e produtos”, acrescenta
Poitevin.
Consciência ecológica
A indústria calçadista brasileira foi
formada ao longo das últimas décadas
baseada no intensivo uso de adesivos base solvente.
Segundo Poitevin, da Artecola, a indústria
ainda utiliza adesivos de poliuretano na colagem
de solados e em algumas outras aplicações,
enquanto os de policloropreno são mais indicados
em aplicações de montagem e preparações
de costura, por exemplo.
Ele
conta que em 2005 houve uma demanda de 25 mil toneladas
de adesivos para a indústria calçadista
no Brasil, a maior parte, aproximadamente 14 mil
toneladas, relativa a adesivos de poliuretano base
solvente. “A demanda total no Brasil gerou
em 2005 uma receita próxima a US$ 90 milhões”,
contabiliza.
Batista,
da Amazonas Quimicam, divide a mesma opinião.
Ele diz que os adesivos de base solvente, tanto base
policloropreno como base poliuretano, ainda são
os mais utilizados. Isso se deve, segundo ele, à excelente
versatilidade desses produtos, adequando-se praticamente
a quase todos os materiais utilizados na indústria
calçadista.
Segundo
Batista, o adesivo base água
deixou de ser uma promessa e hoje é uma realidade
em muitos setores. “Percebemos que o mercado
mudou a sua visão quanto ao uso desses adesivos.
Além das vantagens ecológicas, eles
possibilitam ganhos econômicos representativos”,
avalia Batista.
Miguel
Silva, gerente de vendas da Divisão
Calçados da National Starch & Chemical
Industrial (NSCIL), subsidiária brasileira
da National Starch & Chemical Company (NSCC)
dos Estados Unidos, afirma que os produtos ecologicamente
corretos são altamente competitivos, no que
tange ao custo dos mesmos para o produtor, e o desempenho é superior às
velhas tecnologias base solvente.
O
hot melt também
ganhou espaço no
segmento calçadista por se tratar de um adesivo
100% sólido, ou seja, livre de solventes.
Eva Maitê Machado, supervisora técnica
da FCC Fornecedora, conta que a preferência
pelo hot melt está no fato de ser sólido,
não exalar cheiro nem vapores tóxicos.
Para
Poitevin, diferentemente do consumidor europeu, o
brasileiro ainda não teve despertado seu “consumo
ecologicamente responsável”, buscando
produtos de caráter mais ecológico
e menos agressivo ao ambiente e à sociedade. “O
brasileiro, de certa forma, valoriza, porém
não paga mais por tecnologias mais limpas”,
lamenta.
Segundo
ele, o que há de mais avançado
tecnologicamente em adesivos para calçados
são os termorreativos. Na sua visão,
essa tecnologia deve ganhar espaço mais rapidamente
nos próximos anos em virtude do desenvolvimento
de equipamentos para aplicação nas
mais diversas operações e devido à crescente
necessidade de colagens com maior resistência à temperatura.
Segundo
Silva, além de produtos ecologicamente
corretos com redução de VOC (Compostos
Orgânicos Voláteis), a indústria
de adesivos para calçados pede itens de alto
desempenho, sem perder o foco na economia direta,
no consumo e no valor dos adesivos.
Eva,
da FCC Fornecedora, cita, como exigências
atuais do setor, alta resistência, secagem
rápida, bom rendimento, facilidade de aplicação
e bom custo-benefício.
Batista,
da Amazonas Quimicam, salienta que esse é um
mercado que exige um amplo conhecimento técnico
de adesivos e principalmente dos materiais (insumos)
empregados nos mais diversos tipos de calçados
fabricados. “A conseqüência disso é que
precisamos desenvolver adesivos e processos de colagem
novos, que possibilitem aos nossos clientes ganhos
em termos de desempenho e custo sem alterar a qualidade
dos nossos adesivos”, observa.
O
monstro chinês
Silva, da National, diz que a concorrência
asiática tem prejudicado os volumes de produção
da indústria brasileira. “Porém,
o mercado interno tem dado provas de sua força,
recuperando-se gradativamente, com criatividade e
otimismo”, analisa Silva.
Poitevin
alerta que a indústria calçadista
brasileira está passando por momentos difíceis,
principalmente com relação à concorrência
chinesa. Por essa razão, a companhia tem buscado
adesivos que apresentem bom custo-benefício,
que eliminem etapas do processo e reduzam custos. “A
performance da colagem também é algo
essencial, visto que reduzir a qualidade em razão
de problemas de custeio não deve ser a estratégia
usada neste momento”, acredita.
Adriano
Bragagnolo, gerente de vendas da Brascola, diz
que a exigência
de fatores como custo acessível,
associado à alta qualidade, deve-se ao “esmagamento” sofrido
pelas indústrias calçadistas por fatores
externos, como a crescente importação
de calçados de outros países, principalmente
da Ásia. Na sua avaliação, as
exportações também diminuíram,
o que reduziu drasticamente as produções.
Na
visão de Silva, o consumo interno cresceu,
mas o volume de exportação caiu nos últimos
três anos em número de pares produzidos. “Fica
claro que o Brasil está buscando mercados
de maior valor agregado, uma vez que tem perdido
as linhas mais baratas para nossos concorrentes asiáticos.
Essa clareza fica evidenciada devido à queda
em pares produzidos e a leve alta nos valores negociados”,
constata.
O que os fabricantes oferecem
Amazonas
Quimicam
A Amazonas Quimicam participa
do mercado calçadista com uma ampla linha
que inclui adesivos base solvente, base água
e poliamidas. O foco da Quimicam são os adesivos
base água, sem deixar de lado o carro-chefe
da empresa, que são os adesivos base solvente. “Em
2006, lançamos
muitos produtos na linha base água que são
grandes sucessos de venda e desempenho. Pelo segundo
ano fomos à Europa e à Ásia
pesquisar novas fontes de matérias-primas
e tecnologias e trouxemos grandes novidades que estarão
no mercado em 2007”, promete Batista. Ele
também cita lançamentos, como os adesivos
que não amarelam
e sem tolueno, a linha AT; a linha Premium, processo
de colagem de borracha sem lixar; uma linha completa
de base água para solados e preparação. “Mas
o grande sucesso e inovação foi a linha
Premium, com a qual conseguimos mudar todo um conceito
e tradição dentro da indústria
calçadista,
trazendo significativos ganhos para os nossos clientes,
além do aspecto
ecológico, já que o produto promove
a eliminação
de resíduos”, explica.
O
setor de calçados
representa para a Quimicam uma participação
em torno de 60% do faturamento. A exportação
gira em torno de 5%. “O
nosso grande mercado são as indústrias
de calçados, seguido
pelo comércio e distribuidores”, conta
Batista. A companhia, com um total de 140 funcionários,
fica em Franca (SP) e tem unidades em João
Pessoa (PB) e Novo Hamburgo (RS). Firmou uma parceria
com a Satra, instituto de pesquisa , além
de ter os selos ISO 9001/2000, Atuação
Responsável e Pró-Criança.
Artecola
A Unidade de Negócio Adesivos da Artecola
apresenta uma ampla gama de produtos destinados às
aplicações da indústria calçadista,
possuindo desde os tradicionais adesivos de policloropreno
e poliuretano em base solvente até tecnologias
mais novas, como os adesivos aquosos, filmes adesivos
e hot melts reativos. Seu portfólio também é formado
por produtos auxiliares, como thinners, e primers
para as mais diversas aplicações, como
curas UV, inversões de polaridades em materiais
como nylon, PU, TR, SBR, OS e EVA. Para adesivos
a Artecola possui três unidades no Brasil
- Campo Bom (RS), Diadema (SP) e Campina Grande (PB)
- e dois centros de distribuição -
Franca (SP) e Dias D'Ávila (BA). No
exterior, são duas indústrias (Argentina
e Colômbia)
e três centros de distribuição
(Chile, Peru e México). Atualmente, o Grupo
Artecola conta com 1,2 mil colaboradores na América
Latina.
Brascola
A Brascola está localizada no município
de São Bernardo do Campo (SP), onde possui
escritório e fábrica em uma área
de 25 mil metros, além de filiais em Franca
(SP) e Novo Hamburgo (RS). Sua estrutura completa
conta com 200 colaboradores. Os setores fabril, administrativo
e comercial são totalmente informatizados
e as equipes de representantes e distribuidores atuam
nos principais centros industriais brasileiros. A
empresa atua nos segmentos calçadista, moveleiro,
construção civil/comércio, artesanato,
náutico, automobilístico, utilização
doméstica e indústria em geral. “Em
2005, nosso faturamento foi de R$ 90 milhões
e a perspectiva para este ano é aumentar em
20% esse valor”, revela Bragagnolo. Sua linha
de produtos atende às diversas aplicações
para o calçado em geral. “Em especial
temos o lançamento efetuado em 2006 da linha
Ecopren, tecnologia de adesão dispersa em água”,
explica. Segundo ele, a linha está sendo ampliada
com o objetivo de atender a todos os processos da
confecção de um calçado.
FCC Fornecedora
A FCC Fornecedora foi fundada em 1969 e está situada
no município de Campo Bom (RS). Conta hoje
com aproximadamente 350 colaboradores. Seu volume
de produção compreende aproximadamente
10 mil toneladas por ano, destinando 70% da sua produção
ao mercado calçadista e 30% aos mercados moveleiro,
automotivo e de construção civil. Desde
1999 a empresa é certificada com a ISO 9001.
Seu portfólio é formado por produtos
desenvolvidos com a mais alta tecnologia, como adesivos
base água, hot melt e adesivos base solvente. “Também
colocamos à disposição do calçadista
produtos auxiliares, como primers, solventes e limpadores,
entre outros componentes para calçados”,
enumera Eva. Segundo ela, existe uma grande concentração
de esforços em produzir e tornar viável
o uso de adesivos base água, principalmente
por motivos ambientais. “Nossa empresa oferece
uma ampla gama de produtos à base d’água
e está em constante busca na área de
pesquisa e desenvolvimento com intuito de oferecer
produtos que atendam às exigências do
mercado”, acentua.
National
A
National Starch & Chemical Industrial oferece
uma linha completa de adesivos, primers, limpadores
e demais produtos destinados à confecção
de calçados dos mais variados modelos. São
mais de 600 variedades de produtos comercializados
ao redor do globo. “Nosso carro-chefe em âmbito
global são os adesivos e tecnologias base água
da linha Aquace”, conta Silva. “Os adesivos
base solvente e hot melt e demais tecnologias limpas
compõem nosso leque de alternativas”,
completa. A empresa está em constante pesquisa
e desenvolvimento de produtos que visam a redução
de VOC, para agregar valor ao produto final de seus
clientes e tornar o calçado brasileiro aceito
nos mercados mais exigentes no âmbito internacional. “Vamos
lançar na Fimec 2007 adesivos base água
e adesivos e máquinas de aplicação
de hot melt”, afirma. A National possui três
fábricas no Brasil, sendo uma de amidos industriais,
uma de amidos alimentícios e uma de adesivos
industriais, localizada em Jundiaí (SP). Atualmente,
possui no Brasil 265 funcionários e promete
um investimento de US$ 5 milhões em
2007 para ampliação de suas linhas
de produção.
Una
A Una oferece várias linhas de adesivos e
produtos auxiliares. Entre os destaques estão
as linhas tradicionais de base solvente, voltadas
para a preparação (pesponto) e montagem
do calçado, além da já conhecida
linha de adesivos à base de água Unagreen. “Contando
com adesivos de PU (PVC) e CR (cola forte), 100%
isentos de solventes, a linha Unagreen vem atendendo
a um número cada vez maior de indústrias
que estão à procura de qualidade sem
agressão ao meio ambiente”, observa
Hissao Yamada, diretor comercial da Una. Para atender às
exigências das indústrias calçadistas,
a Una desenvolveu a linha de adesivos TF (Toluene
Free), totalmente isenta de tolueno. A Una conta
atualmente com 120 funcionários em suas três
unidades em São Paulo e na Bahia. |